09 abril 2012


Há alguns meses atrás numa de nossas viagens pelo Brasil pra fazer o show Anos 80, Ritchie comentou comigo que lançaria no dia de seu aniversário em março desse ano um CD chamado "60". Quando me falou sobre o repertório que estava gravando fiquei curiosísssimo e nao via a hora de ouvir esse trabalho. Semanas atrás nos encontramos e ele me deu finalmente esse tão aguardado CD de regravações todas em ingles, seu idioma natal. O melhor disso tudo foi a escolha do repertório, lembro que Ritchie comentou comigo que não gravaria nada muito óbvio de seus conterrâneos. Não haveria Beatles, Stones ou The Kinks. São 15 canções que ele ouvia na sua infância nos anos 60 da "swinging london". Mas no repertório não foram privilegiados somente os britanicos, o disco abre com "Summer in The City", clássico da banda americana Lovin` Spoonful. Em seguida vem uma das minhas regravações favoritas do vocalista Paul Jones, da banda britanica Manfred Mann. Ouvindo a original e essa regravação do Ritchie é onde notamos uma grande diferença. Sem desprezar o original de Paul Jones, Ritchie conseguiu uma nova leitura e dar vida nova a esse clássico, sem perder a originalidade. O mesmo acontece com "Don't Let The Sun Catch You Crying" de Gerry and the Pacemakers. O legal nesse disco é que Ritchie preservou a essencia das musicas, mas deu a elas um certo frescor em cada regravação. A psicodelia está fielmente representada nos arranjos de "Green Tambourine" hit de 1967, da banda americana The Lemon Pipers. Uma música que me surpreendeu bastante foi a regravação de "Wichita Lineman" do americano Glen Campbell. Essa canção de 1968 tocava nas rádios de todo mundo, foi um dos seus maiores hits e quando criança eu ouvia e adorava aquele arranjo grandioso de orquestra. Até nesses detalhes Ritchie foi cuidadoso e trabalhou com orquestra em varias dessas regravações, para mais uma vez preservar essa originalidade dos anos 60. Outro dos meus idolos da infancia também aparece nesse disco é Gordon Lightfoot, um canadense que fez coisas maravilhosas na linha country folk e soft rock. Ritchie regravou dele "If You Could Read My Mind", um hit de 1970. De Liverpool ao invés dos Beatles, Ritchie pegou uma banda menor, mas não menos importante no contexto Merseybeat e British Invasion, o nome deles The Swinging Blue Jeans e a música "You're no Good" que foi top five na Inglaterra em 1964. Eternamente regravado e querido, Burt Baccarach aparece na regravação da fabulosa "Trains, Boats and Planes" (tambem sucesso com Billy J. Kramer & The Dakotas), confesso que quase fui às lágrimas quando ouvi essa regravação do Ritchie. Ele consegue transmitir de forma emocionante todo sentimento de paixão e abandono existente nessa letra. Outro dos meus menestréis favoritos da decada de 60 foi escolhido por Ritchie, o grande Donovan e outra folk psicodelia de primeira "Sunshine Superman". Outro recuerdo de minha infancia é o filme de 007 "You Only Live Twice" na voz de Nancy Sinatra. Outro daqueles arranjos grandiosos para violinos e metais. Uma outra gema desse repertório é a canção "Concrete & Clay" o grande hit da obscura banda Unit 4+2 de Hertfordshire na Inglaterra no ano de 1965. O lado blues psicodelico britanico de Peter Green, dos primórdios do Fleetwood Mac também aparece na sensacional "Need Your Love So Bad" e o discaço encerra magnificamente com uma canção do americano Tim Hardin, uma lenda do folk-rock americano, e por coincidencia é com "How Can We Hang On To a Dream" que Tim Hardin fechava seu primeiro disco em 1966. Uma verdadeira aula de bom gosto musical, que eu aconselho a todos e não só ouçam as versões do Ritchie, mas procurem os originais e descubram um novo mundo de belas canções, de autores, intérpretes e grupos que fizeram parte dessa história às vezes tão esquecida e desprezada de grandes nomes do rock, alguns "one hit wonders", mas mesmo assim de uma importância incalculável.

Só pra completar deixo abaixo dois dos meus discos favoritos de regravações da história do rock. O primeiro é o de Bryan Ferry "These Foolish Things" lançado em 1973. Em seu primeiro disco solo o vocalista do Roxy Music, fez uma seleção impecável de canções de Bob Dylan "A Hard Rain's A-Gonna Fall", "You Won't See me" de Lennon e McCartney e "Sympathy for The Devil" de Jagger e Richards, fora os clássicos dos sixties como "Piece Of My Heart", "Don't Worry Baby" e "The Tracks of My Tears". Assim como Ritchie, Brian Ferry deu sua própria leitura para essas regravações e em alguns casos até uma cara de Roxy Music, como na canção de abertura de Bob Dylan. É mais um daqueles discos que me emocionam do começo ao fim.



O próximo é "Pin Ups" de David Bowie, lançado no mesmo ano de 1973. Esse disco foi severamente criticado pois Bowie vinha de albuns consagrados como "Aladdin Sane" e "Ziggy Stardust" e um disco de covers não era exatamente o que a critica esperava naquele momento. Mas eu adorei esse album pois me mostrou clássicos de coisas que ate então eu ignorava como The Pretty Things e Easybeats. No repertório ainda tem Yardbirds, The Who e a clássica "See Emily Play" dos tempos de Syd Barrett no Pink Floyd. Bowie também procurou preservar a essencia psicodélica dos originais e associou os arranjos da guitarra ensandecida de Mick Ronson dando um brilho mais glam rock para as regravações.



Saindo das regravações para os originais, meu disco de cabeceira nesse momento depois do Leonard Cohen, é Dr John que volta produzido por Dan Auerbach, guitarrista do The Black Keys. Dr John trabalhou com um time de músicos jovens, mas a idéia não era reviver os tempos de seus clássicos como "Gris-Gris" de 1968. O objetivo era dar um novo sabor ao suingue desse cultuado jazzista blueseiro de New Orleans. O resultado final é moderno e preserva toda caracteristica do som de Dr John.


Abaixo recomendo três de seus clássicos, o primeiro é 'Gris-Gris" a sua obra máxima da psicodelia misturando elementos como New Orleans Mardi-Grass, R&B, voodoo e misticismo.


De 1973 o álbum "In The Right Place" traz a versão de Dr John para o rock de New Orleans e seu hit single "Right Place, Wrong Time".


Em 1972 saiu aqui no Brasil o álbum "Dr John's Gumbo" e esse foi meu primeiro contato com a música de Dr John e sua fusão de estilos.Bem diferente dos dois primeiros albuns que exploravam mais as tendencias psicodélicas esse disco é bem mais abrangente e um dos melhores de sua carreira.


E pra terminar deixo um video de algumas coisas novas que ouvi nesse início de ano e aproveito o ensejo para um breve desabafo em relação as críticas que venho recebendo nos comentários desse blog. Algumas resolvi nem publicar pois acho muito desagradável o que vem acontecendo. Aliás muito disso me tirou um pouco a vontande de continuar escrevendo. Tem certas coisas que eu não consigo entender nesse país, desde o começo de minha carreira minha opinião é questionada, lembro que no rádio em 1979 quando mostrava new wave e pós punk eu era chamado de louco e recebia severas criticas dos ouvintes por tocar por exemplo "This Year's Model" de Elvis Costello, "White Music" do XTC ou "Entertainment" do Gang Of Four. Tudo isso soava como um afronto para aquelas pessoas que se recusavam a ouvir o novo. Perdi meu emprego em rádios várias vezes por tocar coisas desconhecidas e que depois com o passar dos tempos acabaram sendo reconhecidas. O mesmo aconteceu em minhas passagens pela 97 FM tocando Britpop e todo mundo odiando Blur, Manics e Pulp, por exemplo. Depois na Brasil 2000 quando assumi a programação fui considerado insano ao tocar a primeira gravação do Franz Ferdinand e do Arctic Monkeys, por exemplo, mais uma vez perdi o emprego pois eram muitas reclamações de ouvintes, que tempos depois endeusavam essas bandas. O mesmo aconteceu com o Lado B da MTV e mais recentemente no Yahoo. Nunca me importei com essas coisas, sempre acreditei no novo, nunca tive medo de música. Queria ser o John Peel desse país, mas que pretensão a minha. John Peel era Deus e meu eterno mentor, aquele que sempre quis ouvir o que vinha pela frente, não interessava se fosse apenas por um single ou uma unica boa canção. Hoje aos 57 anos de idade me incomodo ao ser criticado por acreditar em novas bandas, mesmo assim não vou desistir. Não desprezo o passado, a prova está no texto acima e em tantas outras coisas que escrevi, mas eu lhes rogo deem uma chance pro novo e parem com certas ofensas e radicalismos. Não quero ser dono de verdade alguma, é apenas minha opinião, se incomoda tanto pra alguns por favor tirem meu blog dos seus endereços e procurem outras opções.