19 abril 2007

Manic Street Preachers


Tenho algumas histórias pra contar sobre o Manic Street Preachers, mas a melhor de todas é aquela da minha tietagem pela banda.
Desde os primeiros singles quando a banda surgiu lá pelos idos de 1991 no País de Gales, comecei a me tornar um cara obcecado pela banda. Queria todos os singles, colecionava jornais e revistas que eles apareciam, até que finalmente em 1993 consegui vê-los ao vivo na Inglaterra, ainda com o depois desaparecido Ritchie na guitarra( alguns diziam que ele não tocava). Quase consegui fazer uma entrevista com o próprio Ritchie nessa epoca, mas por uma fatalidade no metro londrino perdi esse encontro.
Alguns anos mais tarde no CMJ em NY tive a oportunidade de vê-los ao vivo novamente, cara a cara tocando na loja da Virgin em Times Square, lançando o álbum "Everything Must Go"(1996).
Lembro que nesse dia eu estava com o Roberto Maia da ex Brasil 2000( na epoca meu diretor na rádio onde eu apresentava um programa diário)
Naquele dia eu tava muito ancioso, queria pegar autografos da banda em tudo, até na fita cassete daquele novo disco. Entrei na fila várias vezes e consegui todos os autografos, parecia um adolescente histérico (numa comparação mais absurda, me comportei como uma tiete do RBD, que horror!!!)
Daí enfiei na cabeça que tinha que gravar uma entrevista com o James Dean Bradfield pro meu programa de rádio. Mas a essa altura até os seguranças da loja já tinham sacado o meu desespero de tiete e queriam me colocar pra fora da loja, tal o meu estado de euforia. Num dado momento tentei me aproximar do James Dean perto da lanchonete da loja e senti que ele me evitava. Quando cheguei perto ele fez um gesto pro segurança da loja insinuando que eu estava drogado e pra que me retirassem da loja.
Foi uma cena deprimente que eu jamais esquecerei, mas confesso que terminaram ali meus dias de tietagem, depois dos Manics numca mais tietei banda nenhuma e prometi a mim mesmo que seria outra pessoa a partir daquele dia. Hoje prefiro ver as coisas acontecerem de longe e não tenho mais aquele digamos "fogo no rabo" de outrora.
Bem, mas nem porisso deixei de gostar dos Manics, tanto que continuo colecionando seus lançamentos.
Depois das aventuras em carreira solo de James Dean Bradfield e Nicky Wire, eles estão de volta com um novo álbum.
Uma epoca perigosa pra qualquer volta de bandas consagradas na decada de 90 e que ficaram fora do ar nos últimos cinco anos.
Muita coisa mudou a gente sabe e hoje eles tem um páreo dificil ao lado de novatos consagrados como Arctic Monkeys,Killers e Franz Ferdinand, por exemplo.
Mas o bom dessa história é que nada disso assustou os Manics, eles entram nessa nova era com 10 canções no mínimo brilhantes pra esse novo álbum "Send Away The Tigers".
A primeira audição me deu a impressão de que eles resgataram a fase incendiária dos primeiros discos como "Generation Terrorists"(1992),"Gold Against The Soul"(1993) e "The Holy Bible" (1994).
Por outro lado o disco tem também o requinte de arranjos de Everything Must Go" (1996) e "This is My True Tell Me Yours" de 1998.
O novo single "Your Love Alone is Not Enough" que sai na semana que vem na Inglaterra traz a participação vocal de Nina Persson dos Cardigans, uma balada pop fortissima com a marca registrada Manic Street Preachers.
Antes desse single a banda lançou também um single em vinil de 7 polegadas em edição limitada da música "Underdogs" um resgate da pura energia dos Manics da primeira fase em canções memoráveis como "You Love Us".
Engraçado que os Manics sempre foram fãs do Guns n´Roses e nesse álbum tem até uma canção chamada "Autumsong" que o solinho de guitarra lembra bastante a fase Slash no álbum "Appetite for Destruction"mais prescisamente em "Sweet Child O´Mine".
O legal desse novo disco dos Manics é que eles continuam autênticos, não se renderam a nenhuma modernidade do recente pop britanico.
Continuam usando com sutileza suas raízes de hard rock, punk e até mesmo rockabilly, uma boa surpresa na faixa "Imperial Bodybags" que começa com um baixão acústico e uma levada de bateria que lembra "Rock This Town" do Stray Cats na introdução, mas depois vira Manic Street Preachers com o inconfundivel vocal de James Dean Bradfiled.
Além das 10 músicas originais da banda, o CD ainda trará uma faixa escondida, uma regravação de "Working Class Hero" de John Lennon.

16 abril 2007

Detroit Cobras - Tied and True

No final da decada de 90 o foco musical estava em Detroit e várias bandas surgiram daquela cena de garage rock.
Um selo muito especial concentrava a maioria delas, a gravadora Sympathy For The Record Industry. Ela foi o berço de bandas como White Stripes, The Come-Ons, The Von Bondies e do Detroit Cobras.
Uma das bandas mais influentes dessa geração de garage rock de Detroit da decada de 90 foi o The Gories de Mick Collins.
Em 2000 Mick Collins formou o Dirtbombs, um de seus projetos mais geniais e já lançou de lá pra cá alguns discos que se tornaram clássicos do garage rock underground da Motor City.
Outra grande banda que saiu dessa mesma geração Detroit foi o Soledad Brothers, com uma discografia espetacular a partir de 2000.
Graças ao sucesso do White Stripes essas bandas de Detroit começaram a aparecer na mídia e despertaram a atenção da imprensa britânica, que no final da decada de 90 criou um certo "hype" com a bandas de Detroit.
Por opção algumas delas preferiram continuar no underground e recusaram assinar com grandes gravadoras, uma delas foi o Dirtbombs, considerada por alguns ciriticos ingleses como a melhor banda de Detroit do final da decada de 90 depois do White Stripes.
No caso do Detroit Cobras foi a mesma coisa,eles preferiram continuar na cena independente do que se venderem e acabarem virando um produto qualquer na mão das grandes gravadoras.
A primeira vez que ouvi Detroit Cobras foi por indicação do falecido e saudoso DJ britanico John Peel.
Numa lista que John Peel fez no ano 2000 de suas músicas favoritas constava "Shout Bama Lama" de Otis Redding na sensacional regravação do Detroit Cobras.
Imediatamente fui atrás do álbum "Life, Love and Leaving" (2001) e fiquei encantado com a voz da vocalista Rachael Nagy, uma mistura de Janis Joplin com a Motown superstar dos sixties Mary Wells.
Aliás a influencia Motown está estampada no trabalho do Detroit Cobras desde o primeiro álbum "Mink ,Rat or Rabbit" de 1998.
Hoje os ingleses criaram esse hype de girl groups e interpretes femininas com influencias de Motown e Shangri-las (Pipettes, Lucky Soul, Revelations etc), mas o Detroit Cobras e o Come-Ons já resgatavam Motown desde o final dos anos 90. Pena que tudo isso aconteceu no momento errado, pois naquela epoca os holofotes estavam voltados sómente para o White Stripes e não permitiu que bandas como o Detroit Cobras conseguissem maior penetração na mídia.
Um detalhe interessante no Detroit Cobras é que desde o inicio a banda optou por regravações de obscuridades da decada de 60 incluindo Motown e autores cultuados dos sixties.
Por opção de Rachael Nagy a banda até hoje sobrevive de regravações, isso gerou alguns protestos da critica no inicio, mas parece que agora a maioria já se acostumou com o fato do Detroit Cobras não apresentar um repertório próprio.
Isso porque as regravações tem sabor de originais, pois a banda consegue dar a cada uma um arranjo especial e escolhe sempre obscuridades que para um leigo parecem inéditas.
É o que acontece com esse novo trabalho que sai na semana que vem nos EUA e Europa, o álbum "Tied and True".
Um álbum repleto de regravações da verdadeira R&B, Soul Music e referencias do rock dos anos 50, 60 e 70.
Dentre as regravações do disco estão músicas do The Equals,The Melodians,Irma Thomas,Garnet Mimms e Gino Washington.
Uma regravação interessante nesse disco do Detroit Cobras é a música "Leave my Kitten Alone" de Little Willie John um dos grandes performers de R&B do final da decada de 50 e começo dos anos sessenta. O detalhe é que essa música foi regravada até pelos Beatles e está no álbum Anthology 1.
"Tied and True" sem dúvida é o melhor álbum da carreira do Detroit Cobras e ninguém mais adequado nesse mundo pra remexer no baú Motown, Soul e R&B do que a banda de Rachael Nagy que afinal de contas vem da fabulosa Detroit Motor City, o berço da música negra nos anos cinquenta e a terra do MC5 e dos Stooges na decada de 60.

05 abril 2007

Billy Childish

Billy Childish é um dos maiores outsiders do rock ingles desde o início dos anos 80.
Uma das melhores lembranças que eu tenho dele foi quando em 1983 assisti a um show de uma de suas primeiras bandas o Milkshakes.
Esse show ficará pra sempre gravado na minha memória pois eles eram uma das bandas de abertura do grande guitarrista Link Wray (1929-2005).
Esse show aconteceu no Electric Ballroom em Candem Town/Londres, essa é uma das mais modestas casas de shows inglesas, mas por alí já tocou quase todo mundo de 1980 até hoje.
Só pra citar na mesma epoca vi um show espetacular com Classix Noveaux e o Ultravox que estreava com Midge Ure no lugar de John Fox.
No Electric Ballroom nos finais de semana durante o dia eles usam o espaço pras feiras de discos e também para o mercado de Camdem aos sábados e domingos.
Tem um palco enorme ao fundo e uma pista que acomoda umas 2000 pessoas, não tem o requinte e a arquiteura de uma Brixton Academy, de um Astoria ou do Shepherds Bush Empire, mas a disposição do local é perfeita pra shows.
Falei do palco pois nessa noite de Link Wray, a banda de abertura era uma banda de rock and roll fifities chamada The Pirates.
A banda fez sua apresentação bem performática às vezes lembrando o Sha-Na-Na e em seguida entrariam os Milkshakes de Billy Childish.
Notei que do lado da pista tinham armado um pequeno palco cheio de bixigas de aniversário e alguma aparelhagem.
Não entendi nada quando entraram os Milkshakes nesse palquinho improvisado, pois eles poderiam muito bem tocar no palco principal, pois a banda acabava de lançar seu segundo álbum "14 Rhythm & Beat Greats" e toda critica cobriu o disco de elogios.
Mas, foi aí que entendi a intenção do som dos Milkshkes "garagem" nos seus mínimos detalhes.
O som era sujo, os amplificadores eram antigos tudo vintage, e a voz de Billy estava conectada a um velho amplificador de valvulas que transmitiam pra umas caixinhas de voz estouradas e distorcidas.
Num primeiro momento fiquei decepcionado com a qualidade tecnica do som, pois os esperava no palco principal com toda aquela parafernália de luz e som.
Agora a originalidade e a coisa autentica do som sixties daquele momento foi impagável, parecia que eu tinha voltado no tempo e estava vendo alguma banda da chamada "British Invasion" na decada de 60.
O show de Link Wray foi espetacular, mas o brilho dos Milkshakes naquela noite ficou na minha memória pra sempre.
Billy Childish passou a colecionar bandas, a partir dos Milkshakes vieram The Headcoats, Thee Might Ceasers,Delmonas,The Natural Born Lovers e Buff Medways.
Além disso fez uma série de albuns em carreira solo, lançou livros de poesia, foi editor de fanzine,é critico de música e claro guitarrista, cantor e compositor que sofre por incrível que pareça de dislexia cronica, pode???
Diante de tudo isso Billy Childish só poderia estar na lista dos meus heróis do rock.
A cada cinco anos mais ou menos Billy Childish muda de banda e cria algum projeto novo.
Em 2006 ele terminou com a garageira Buff Medways e montou o trio Wild Billy Childish & The Musicians of The British Empire e lançou um single com as músicas "Punk Rock At The British Legion Hall" e "Joe Strummers Grave"(esta última uma homengem ao falecido ex-Clash Joe Strummer).

Esta semana está saindo no Reino Unido o álbum de estréia da banda, apesar do titulo e das referencias das músicas o som da nova banda de Billy Childish faz aquele mesmo som das bandas de garagem dos anos sessenta, essas são as verdadeiras raízes do punk, que Billy Childish se refere em suas canções.
Trabalhando intencionalmente com aquela mesma sonoridade que eu ouvi em 82 no segundo álbum dos Milkshakes, Billy Childish continua sendo um dos músicos mais originais e criativos há mais de 25 anos.

04 abril 2007

THE ALIENS - Astronomy For Dogs

Antes de começar a comentar The Aliens é preciso voltar no passado e relembrar uma das mais injustiçadas bandas do final da decada de 90 a Beta Band. O grupo gravou tres excelentes álbuns e terminou em 2004 depois de lançar o disco "Heroes to Zeroes".
O motivo do término da Beta Band foi o descontentamento de seus integrantes, pois os tres discos receberam altos elogios da crítica, mas não tiveram o mesmo sucesso com o público que não reconheceu o trabalho da Beta Band.
Realmente é uma pena, pois muitas vezes o público ingles, principalmente, se identifica muito mais com o "hype" do momento do que com a qualidade.
Depois da Beta Band um dos fundadores Steve Mason tentou um projeto mais ousado chamado King Biscuit Time, que também aconteceu a mesma coisa, boas reviews da critica e pouco sucesso com o público.

Em 2005 dois outros integrantes da Beta Band, John MacLean (samplers e teclados) e Robin Jones ( baterista) juntaram-se a Gordon Anderson que fez há alguns anos atrás o projeto Lone Pigeon.
Gordon Anderson foi também um co-fundador da Beta Band em 1998, mas se afastou da banda em 99 por problemas de saúde, antes que eles gravassem o primeiro álbum.
O trio escoces The Aliens estreou no ano passado com o EP "Alienoid Starmonica" e só recebeu elogios da crítica que mais uma vez os festejou da mesma maneira que o fez há oito anos atrás com a Beta Band.
Independente das comparações com a Beta Band o The Aliens vem num processo digamos mais pop que a Beta Band, mas mesmo assim não deixa de lado as influencias psicodélicas. Criticos chegaram a dizer que uma das melhores definições para o The Aliens é o mesmo que se dizer que o Velvet Underground encontrou o Sly & The Family Stone e fizeram um disco juntos.
Ouvindo "Astronomy For Dogs" dá pra sentir muito mais referencias, principalmente de pop ingles da decada de 60 como a tendencia Merseybeat na música "The Glover".
Cada música tem uma referencia especial como "The Robot" lembra bastante a banda americana Steely Dan.
O arranjo para a faixa "The Rox" tem referencias a Sgt Peppers dos Beatles e a música "The Happy Song" poderia até ser a "Allright" (Supergrass) da carreira do Aliens.
Mas eu sinto que mais uma vez nada disso vai acontecer e o The Aliens vai morrer na praia assim como a Beta Band, pois a banda apesar das boas críticas está perdida nesse mar de neo-britpops que assola o Reino Unido.
Novamente o público britânico vai optar pelos caminhos mais fáceis e o futuro da música mais uma vez será adiado.

02 abril 2007

THIRDIMENSION - Before The End Begins

Discos gravados ao vivo em igrejas sempre me fascinaram, lembro da primeira vez que ouvi "The Trinity Session" dos canadenses do Cowboy Junkies.
Aquele reverb natural que só a acústica de uma igreja pode proporcionar já cria uma atmosfera toda especial. A voz de Margo Timmins foi uma das coisas mais maravilhosas que ouvi na minha vida. A interpretação de "Sweet Jane" é uma das melhores releituras que já fizeram pra uma música de Lou Reed/Velvet Underground.

Esse álbum em questão dos suecos do Thirdimension foi gravado ao vivo numa velha catedral em Malmo na Suecia em 2006 e o resultado é magnífico.
Tem duas regravações muito especiais numa só música "Don´t Fear the Reaper/Dream All Day".
Os caras conseguiram pegar as duas bandas que eu mais adoro de epocas diferentes, "Don´t Fear The Reaper" é original da banda americana de hard rock da decada de 70 "Blue Oyster Cult" e "Dream All Day" é de uma das minhas bandas preferidas da decada de 90 "The Posies".
Mas não fica por aí, pra matar nas releituras eles ainda me dão mais uma paulada com a regravação de "3/5 of a Mile in 10 Seconds" da obra prima do Jefferson Airplane " Surrealistic Pillow".
Os dois primeiros álbuns do Thirdimension "Protect Us from What We Want" de 2002 e "Permanent Holiday" de 2004 trazem um lado mais elétrico da banda influenciada por Radiohead na fase "OK Computer", britpop, muita psicodelia, The Who e David Bowie.
Nesse terceiro álbum "Before The End Begins" a banda resolveu fazer uma releitura acústica de canções dos dois primeiros albuns e incluiram as covers que eu mencionei acima.
O resultado é um álbum fascinante com jeito de disco folk, às vezes dá a impressão que esse disco foi feito lá por volta de 1967, quando eu ouvia The Byrds, Simon & Garfunkel, Buffalo Springfield, Mamas & The Papas e naturalmente Jefferson Airplane.